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domingo, 30 de setembro de 2007

OUVIR E SERVIR


Lc 10, 38-42

Geraldo Ferreira Bendaham

No Evangelho deste domingo Jesus é o próximo acolhido em casa. Na casa há duas mulheres com atitudes, gestos e palavras diferentes. As duas dialogam com Jesus. Uma se chama Maria e a outra Marta. Maria deixou tudo para escutar a Palavra de Jesus. Marta, ao contrario, não parava de trabalhar, inclusive teve a coragem de questionar Jesus porque sua irmã não lhe ajudava no serviço e ainda ordenou a Jesus: diga a ela que me ajude.

As duas posturas são verdadeiras quando se integram e formam uma unidade. A imagem ideal que representa essa postura evangélica é a imagem do matrimônio: duas pessoas diferentes, um só coração unido pelo amor. Uma aliança perfeita da fé com a vida. Um outro jeito de ver essa unidade na ação evangélica ocorre quando realizamos comunhão, participação e missão. Não são três blocos separados, mas intrínsecos. Olhar desse modo o evangelho de hoje, ajuda a eliminar uma tendência a visão maniqueísta da realidade evangélica, ou seja, fazer exageradamente tudo de um lado por que é bom e condenar a outra parte. Isso significa que uns preferem trabalhar e outros a orar. O caminho seguro, com absoluta certeza é o equilíbrio da unidade interior em nossas ações pastorais. Nos evangelhos podemos perceber Jesus, em suas ações, integrando a realidade em sua vida. Não existe duas vidas. Uma que ora ao Pai e outra que trabalha. Mas uma só pessoa com duas dimensões, vivendo a serviço Reino.

No entanto, olhando para realidade, sobretudo, socioeconômico podemos constatar que ocorre um certo exagero em fazer coisas. As pessoas adultas estão sempre procurando algo para fazer. Os comércios, os serviços e as industrias funcionam diuturnamente em todo o mundo. Não se pode parar. O tempo é dinheiro. As coisas se tornaram um feiticismo. Com certeza é preciso estudar, trabalhar, negociar, passear e festejar, mas não se pode absolutizar essa realidade como se fosse a única verdade na vida. O problema esta na absolutizacão das coisas. Muitas pessoas estão amando as coisas mais que a Deus e ainda reclamam de Deus que não ajuda. Sejam elas pastorais, sociais, econômicas ou afetivas.

É nesse sentido que Jesus chama atenção de Marta que anda muita preocupada e agitada com os serviços de casa. Para os cristãos e cristãs, não tem sentido essas preocupações se não for regada com a Palavra de Deus. Somos convidados a ouvir o Senhor para melhor servir as pessoas.

A VIDA “NÃO CONSISTE NA ABUNDÂNCIA DE BENS”



Lc 12,13-21
Geraldo Ferreira Bendaham

Neste domingo Jesus chama atenção de alguém que lhe pede a intervenção na separação da herança. Jesus responde a esse alguém com uma pergunta: “Quem me encarregou de julgar ou dividir vossos bens?” Notemos que essa pessoa não tem nome, mas possui bens e está preocupado com a sua parte, a ponto de pedir a intervenção de Deus na divisão do patrimônio familiar. Esse alguém pode ser qualquer pessoa que esteja com essa mesma preocupação. Essa preocupação exagerada com as coisas é um problema sério ao longo da história da humanidade. As pessoas nunca souberam conviver com os seus bens, de modo que a riqueza sempre fascina as pessoas, causando alegrias e sofrimentos. Recordemos a inveja e a ganância de Caim, a esperteza de Judas e a fraude de Ananias e Safira; as invasões e crescimentos dos antigos impérios babilônicos, egípcios, gregos e romanos com desejo de conquistar novos territórios; as grandes navegações do milênio passado em busca de riquezas e novas terras ao preço de morte dos aborígines; mas recentemente recordemos as guerras do século passado e a pretensão das nações jovens em dominarem com armas, estratégias econômicas e culturais; hoje as grandes bolsas de valores onde correm grandes investimentos de capitais voláteis. Como podemos constatar, há muitas riquezas e bens que nem sempre a humanidade soube administrar em favor de todos. De certo modo a ganância e o egoísmo fazem parte do coração humano. O que pela lei natural devia ser de todos, tornou-se propriedade de poucos, causando sofrimentos às pessoas e a natureza. Quanto as pessoas, são mais de um bilhão que passam fome, enquanto a natureza sofre as consequencias do desenvolvimento irracional. Tudo isso é fruto da ganância humana, embora haja um discurso de desenvolvimento humano e econômico, com sustentabilidade das regiões pobres.

É nesse sentido que Jesus chama a atenção: “tomai cuidado contra todo tipo de ganância (...), a vida de um homem não consiste na abundância dos bens”. Essa é a verdade. A vida das pessoas em comunhão com a natureza é um valor imensurável. O dinheiro, os bens e as coisas que fazem parte da vida não devem escravizar o sujeito. São importantes, mas em relação à vida são relativas. Ajudam na realização, mas não podem ofuscar o verdadeiro sentido da existência, a ponto de ofuscar a caridade e a solidariedade para com o próximo necessitado. Lamentavelmente existem situações em nossa sociedade em que os bens são mais importantes, causando grandes injustiças sociais. Podemos pensar nas pequenas ou grandes relações. No casamento os bens adquiridos ao longo dos anos não podem ser mais importantes que o amor conjugal. Nas comunidades cristãs o zelo pelos bens não podem ser mais importante que o objetivo da missão. Desse modo, podemos pensar nas articulações e acordos políticos em vista da ganância pessoal em detrimento da coletividade ou da exploração de pessoas pelas pequenas ou grandes empresas em vista do lucro maior.

Cuidado coma vida, adverte Jesus na parábola. Não façais como o homem rico que só pensava em acumular, descansar, comer e aproveitar a vida com os seus bens. A vida “não consiste na abundância de bens”. Por isso, somente um verdadeiro encontro com Jesus é possivel deixar que Deus seja o mais importante em nossas vidas.

COMPAIXÃO PELA VIDA


Lc 10,25-37
Geraldo Ferreira Bendaham

Na parábola contada por Jesus a pessoa caída na estrada não tem nome. Uma pessoa é sempre importante. Não importa quem ela seja, criança, jovem, adulto, idoso, doente, migrante. Jesus disse que essa pessoa foi atacada por outras pessoas que lhe roubaram tudo. Deixaram-na muitas feridas em seu corpo, quase morta, incapaz de se levantar, caída à beira da estrada, esperava a morte ou alguém que pudesse socorrê-la, pois não tinha forças para se erguer do chão. Tamanha era a sua dor que chegara a perder o sentido da vida. Muitas pessoas que transitavam pelo mesmo caminho viram a sua situação de sofrimento, mas decidiram ir para o outro lado evitando-a, assim, a socorrê-la. Muitos que estavam no mesmo caminho pensaram: “ta numa situação de morte é melhor que morra mesmo” ou “não há mais jeito para essa pessoa, vou cuidar dos meus interesses pessoais, pois já estou atrasado para os meus negócios e devo também ir a igreja fazer as minhas orações, pois sou uma pessoa com obrigações religiosas”. O fato é que a pessoa continua caída na estrada e muitos continuam a mudar o caminho para não ter que olhar de perto a situação do próximo. Quem é o meu próximo?
O próximo é a pessoa que está no chão, ferida pela sociedade globalizada que privilegia a economia em detrimento das pessoas. Nesta sociedade consumista mundializada as pessoas são sutilmente surradas em sua dignidade onde só tem vez quem tem conhecimentos, dinheiro, etiquetas sociais. As pessoas estão quase mortas, caídas nas esquinas ou nas periferias das cidades! Sentem vergonhas de mostra o rosto. Os negócios são mais importantes, daí sobra pouco tempo para ver as pessoas caídas. São milhões que estão caídos, esperando a compaixão de corajosos e audaciosos samaritanos. Mas o próximo não se ver com os olhos da cara, mas com os sentidos interiores. O coração do Samaritano estava cheio de compaixão, por isso viu a situação do próximo e teve o cuidado com a sua pessoa. Sem compaixão no coração, não é possível ver o próximo. Como a sociedade pode ver o próximo se no seu coração o egoísmo é grande?
Para recuperar a verdadeira experiência de compaixão, precisamos nos envolver com o Evangelho. Não repetir as palavras ou enfeitar o exterior, mas deixar a Palavra assumir a nossa existência. Deixá-la tomar conta do nosso interior até assumir todo o nosso ser. Seremos Palavra de Deus viva que vai ao encontro dos caídos, numa sociedade que esquece o seu próximo. Seremos samaritanos criativos, assim como o Mestre. Não desviaremos o caminho. Enfrentaremos qualquer situação para cuidar do próximo necessitado. O Próximo necessitado precisa de mim! Só é possível vê-lo e cuidar com compaixão pela vida!

QUANDO OFERECERES UM BANQUETE, CONVIDA OS POBRES


Lc 14, 1.7-14

Geraldo Ferreira Bendaham

A Palavra de Deus por si só já diz tudo. Temos somente que obedecer e seguir seus ensinamentos e seremos felizes em nossa existência. Na Palavra de hoje, Jesus oferece mais um ensinamento: “quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” da cidade e do interior. Estas pessoas necessitadas eram deixadas à margem pela sociedade do tempo de Jesus, tanto por parte dos religiosos da época, representada na parábola pelos fariseus, como pela organização social dos governantes. Havia um ciclo maldito que impedia as pessoas necessitadas de terem oportunidades para se integrarem na sociedade e viverem com dignidade. Por serem pobres não podiam pagar o dizimo ao templo ou as taxas para o governo. Se não tinham recursos não eram abençoadas por Deus e continuavam pobres. É neste contexto que Jesus prega o Reino, invertendo a lógica do banquete. No banquete dos fariseus somente pessoas influentes e importantes eram convidadas. Exibiam-se disputando os melhores lugares a mesa ou na sociedade. No banquete aconselhado por Jesus os convidados devem ser “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”. Neste banquete do Reino todos têm vez e oportunidades para viverem. São todos irmãos e irmãs e ninguém passar necessidades ou é excluído da vida. Exige conversão de mentalidade e coração. Recordemos que Jesus nos deu vários exemplos: curando os doentes, devolvendo-lhes saúde e integrando-os ao convívio social; acolhendo os pecadores e abrindo os olhos aos cegos para que possam enxergar a si, o outro e a Deus. De modo que as atitudes de arrogância, desprezo pelos pobres, falta de sensibilidade e solidariedade com o próximo e a busca pelo primeiro lugar desqualifica o sujeito de participar do banquete do Reino. Por isso Jesus afirma: “quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”.

“Não tomes o primeiro lugar”. Em nossa sociedade a busca pelo primeiro lugar, a fama e o prestigio foi sempre um anseio humano em todas as épocas históricas da humanidade, mesmo que tenha de pagar um preço alto. Assim funcionam muitas organizações econômicas, sociais, políticas e religiosas. Agem da mesma forma as marcas de produtos, serviços ou idéias tentando com estratégias diversas ocupar o primeiro lugar na mente das pessoas. Predomina de certa maneira a tendência do ter para ser mais forte e poderoso. No capitalista o pensamento econômico de mercado contagiou a muitos e determina comportamentos e decisões na vida. O importante é o resultado econômico da estratégia planejada em grandes banquetes que considera o lucro mais importante em detrimento da dignidade das pessoas, não obstante, algumas tímidas iniciativas de políticas de responsabilidades sociais e ambientais que servem apenas para calar a consciência empresarial.

Lamentavelmente, o cenário político da sociedade brasileira pode ilustrar muito essa busca desenfreada pelo primeiro lugar, principalmente em época de eleição. É fácil constatar no grupo farisaico dos políticos, com rara exceção, a busca desenfreada pelo primeiro lugar, mesmo que tenham de roubar o dinheiro do povo para enriquecimento pessoal e elícito; pagam grandes jantares as pessoas escolhidas; se dizem pessoas da lei, mas driblam a lei e compram votos dos pobres; sabem que se forem pegos, podem se esconder atrás do dinheiro e de amigos importantes em outros poderes. Uma cascata de impunidades ocorre também em outros setores da sociedade.

Nesse sentido os ensinamentos evangélicos de Jesus são luzes que eliminam a avidez pelo primeiro lugar e sacia toda busca humana. Urge uma profunda experiência do Evangelho pelos cristãos e comunidades, sem repetir atitudes farisaicas, tornando-se através do testemunho evangélico sinal do Reino na sociedade.

LÁZARO, DEUS AJUDA OS POBRES


Lc 16, 19-31
Geraldo Ferreira Bendaham

Lendo e contemplando a parábola contada por Jesus, segundo S. Lucas, percebemos que Jesus continua ensinando seus discípulos. Nesta a parábola, Jesus trata de um assunto muito importante para vida dos seus seguidores e para vida da humanidade. Trata-se da questão da riqueza e da pobreza. Um assunto tocado por diversas vezes no evangelho de Lucas. (Cf Lc 12,13-21; 21, 1-4). Leia também Mateus 19,23; 6,24). Jesus disse: “Havia um homem rico que vestia roupas muito caras e todos os dias dava uma grande festa. Havia também um homem pobre, chamado Lázaro, que tinha o corpo coberto de feridas, e que costumavam largar perto da casa do rico. Lázaro ficava ali, procurando matar a fome com as migalhas que caíam da mesa do homem rico. E até os cachorros vinham lamber as suas feridas. O pobre morreu e foi levado pelos anjos para junto de Abraão, na festa do céu. O rico também morreu e foi sepultado. Ele sofria muito no mundo dos mortos”.

Recordemos que no tempo de Jesus uma pessoa como o Lázaro não tinha oportunidade de entrar no templo para rezar e nem pertencia à sociedade, pois era uma pessoa doente e pobre. Os doentes eram vistos com pessoas impuras. De modo que eram excluídos e sem dignidade. Viviam mendigando pedaços de pão das mesas dos ricos.

Pensar no Lázaro do Evangelho de Lucas, inevitavelmente, nos faz pensar nos Lázaros de nossa sociedade. Quantos Lázaros existem na cidade? Mendigando? Doentes? Tristes? Sem casa, sem salário? – Não basta pensar. É preciso agir. Assim com Deus ficou do lado de Lázaro, somos todos convidados a trabalhar pela partilha e solidariedade. Não somente em épocas de Natal ou Páscoa, mas trabalhar para que o sistema modifique, através de pequenos gestos em nossas comunidades. Comecemos com o testemunho de nossas pastorais, atentas a uma evangelização que vai ao encontro das pessoas, principalmente as pessoas que mais precisam.

Peçamos a Deus que o nosso testemunho comunitário e social possa contagiar também os ricos, afim de não terem o mesmo fim do rico da parábola que no fim da vida, após festas e desprezo pelo pobre Lázaro foi para o inferno.